26 de novembro de 2013

Elielma Maria dos Santos
Faculdade de Formação de Professores do Belo Jardim-FABEJA
Na presente pesquisa discutimos qual a relação entre os fatos ocorridos durante as décadas de 1940 a 1970 na cidade de Panelas, localizada no Agreste central de Pernambuco, distante a 180 km da capital, e a formação sociocultural do município. Buscamos enfocar um cotidiano marcado por transformações que provocaram nas pessoas o orgulho de pertencer ao meio social, compartilhando ideias, sonhos e crenças em comum e a participação de pessoas simples na construção da história local.

A cidade fundada ainda no século XIX preserva grandes objetos históricos como o engenho Amolar, construído durante o Império, os sítios arqueológicos, as comunidades quilombolas, a cultura popular, a Igreja do Bom Jesus, cartão postal da cidade, evidências de sua importância histórica, mas diante de todos esses símbolos, a história de vida das pessoas que viviam nesse contexto precisava ser resgatada e só assim poderíamos entender melhor a história panelense. Um tesouro enterrado que só depois de descoberto era possível dividí-lo com todos que ajudaram a conservá-lo repassando para as novas gerações permitindo assim aos mais jovens uma aproximação com a própria história e do município e assim, manter o elo entre o passado e o presente. A história local que estava apenas na memória dos mais velhos pouco a pouco se perdia diminuindo as possibilidades de ser registrada e fazer parte da historiografia do município, que possuía muitas lacunas a serem preenchidas. Através das entrevistas e dos documentos investigados, resgatamos lembranças individuais e coletivas que guardavam vestígios importantes de um cotidiano marcado por transformações, mudanças, conquistas, decepções, alianças e rupturas, aspectos importantes na construção histórica do município de Panelas.

Oralidade e Memória na Construção Histórica de Panelas
A história oral e a memória foram de primordial importância para a realização desta pesquisa, já que para revisitarmos o passado histórico do município e poder registrar os fatos e acontecimentos, analisarmos as consequências e como cada um deles refletiu na vida e no cotidiano dos panelenses, era preciso ouvir as pessoas, suas lembranças e recordações, ir ao encontro de um tempo que para os mais jovens estava perdido. Grande parte da história local estava apenas na memória dos mais antigos moradores. Através da memória e das narrativas dos mais velhos foi possível reconstruir um elo que há muito tempo tinha sido cortado. Redescobrimos fatos que ficaram fora da história oficial, pois se tratava da história de vida daqueles que apesar de ajudarem no desenvolvimento social, cultural e econômico da cidade, não tiveram seus nomes registrados nas páginas da história.

A memória não é oprimida apenas porque lhe foram roubados suportes matérias, nem só porque o velho foi reduzido à monotonia da repetição, mas também porque uma outra ação, mais daninha e sinistra, sufoca a lembrança: a história oficial celebrativa cujo triunfalismo é a vitoria do vencedor e pisotear a tradição do vencidos. ( BOSI, 1994, p.19)

Através desse pressuposto, nós subtendemos que a história oral do município panelense vivia na marginalidade, pois as escassas pesquisas a respeito da historiografia local não demonstraram interesse maior por esse lado dos fatos. E mesmo que não tenham uma intenção de “pisotear” a tradição, vemos que de uma forma inconsciente a memória do povo e suas tradições a partir do momento que não são valorizadas, são indiretamente sufocadas, tanto pela história oficial, que ignora os relatos orais de quem participou ativamente de tais momentos, quanto pelas novidades culturais que de certa forma “diminui” os valores de outras épocas ao enxergar em muitos momentos os valores passados como obsoletos. No entanto, essa memória continua como uma fonte de água viva que ainda não foi descoberta. Certas lacunas tanto na história oficial quanto na oral são preenchidas como um quebra-cabeça, que aos poucos vai sendo montado pelos historiadores e os personagens da história, à medida que essas pessoas expressão suas experiências e contam suas ações o historiador analisa, seleciona e registra, transformando assim, tais fatos em história, são representações do que já se foi, reconstruídas e renovadas, com um olhar atual . 

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A cidade de Panelas durante as décadas pesquisadas vivenciou acontecimentos e fatos históricos que ficaram guardados na memória coletiva e individual dos moradores que, diante desses episódios, contribuíram direta ou indiretamente com a história local. Foram personagens anônimos, que apesar de não terem seus nomes nas páginas da historiografia oficial, contribuíram com a construção histórica assegurando a memória e, através da oralidade, repassado para os mais jovens, seus costumes e tradições e experiências, moldando a identidade social, religiosa e cultural do município. 

A nossa discussão buscou resgatar essa história que até então estava na oralidade e precisava ser resgatada, e assim, compartilhada com os mais jovens e todos panelenses que buscam referências culturais, religiosas e sociais e da própria identidade e poder reconstruir o elo que há muito tinha sido quebrado entre o passado e o presente, interferindo, assim, na forma de observamos e analisarmos a nossa história local, repleta de objetos e fontes a serem explorados. Através da oralidade e da memória, pudemos então investigar os fatos e redescobrir a própria história do município. Ao longo do nosso trabalho, muitas respostas foram surgindo e logo algumas dúvidas se desfazendo. Muitos foram os personagens que contribuíram com a construção histórica de Panelas, pessoas simples, mas que dedicaram parte de suas vidas para ajudar a quem mais precisava, transformaram o cotidiano através de suas atividades e fazendo de coisas simples momentos importantes e que marcaram suas vidas e da coletividade. As festas, os pontos de lazer, muitas vezes improvisados pelos moradores sem muitos recursos, mas que levavam alegria para os panelenses, aqueles que se dedicaram à saúde local sem estrutura adequada, mas que ajudaram a cuidar das pessoas carentes e que transformaram isso num modo de vida que se dedicava sem remuneração.

As narrativas nos permitiram descobrir, pouco a pouco, boa parte da história local. A nossa pesquisa possibilitou um encontro entre o passado e o agora, restabeleceu um elo quebrado há muito tempo, dando oportunidade das novas gerações conhecerem e se identificarem com a história, se orgulhando de compartilhar do meio social, e da cultura local. 

REFERÊNCIAS
ADILSON, Filho José. A Cidade Atravessada: Velhos e Novos Cenários belojardinense. Recife. Editora: Comunigraf 2009;

ADILSON, Filho José. Os Caminhos de Clio. Interfaces de Saberes vol.1 jan/jul. João Pessoa: ideal 2001;

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de velhos. 3ª edição. São Paulo. Companhia das Letras 1994;

BOSI, Ecléa. O Tempo Vivo da Memória: Ensaios de Psicologia Social. São Paulo. Ateliê editorial, 2003;

BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a revolução Francesa da historiografia.Tradução Nilo Odalia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997.

DELGADO, Lucília de Almeida Neves. História Oral, Memória, tempo, Identidade. 2ª Edição. Belo Horizonte. Editora: Autêntica, 2010.

MONTENEGRO, Antônio Torres. História Oral e Memória: A Cultura Popular Revisitada. 3ª edição. São Paulo. Editora: Contexto, 1994;

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e História Cultural. 2ª Edição. Belo Horizonte. Editora: Autêntica, 2005;

SILVA, Cristiano Cezar Gomes da. Entre a história e a literatura:as múltiplasletras, os múltiplos tempos, os múltiplos olhares em Graciliano Ramos. Fênix- Revista de História e Estudos Culturais, n.04, out/Nov/dez. 2007;

VEYNE, Paul. Como se Escreve a História, e Foucault Revoluciona a História. 4ª ed. Tradução: Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp. Brasília Editora de UnB, 1998.

ENTREVISTAS:

Creuza Marcolino Cordeiro da Silva professora e uma das atrizes do antigo Teatro Dom Adelino; entrevista realizada no dia 14/07/2010

Francisco Alves Santana “Chico Candido” 106 anos, morador mais velho da cidade realizada no dia 06/07/2010;

Josefa Gessina de Santana, esposa do Sr. Francisco Alves Santana “Chico Candido” realizada no dia 06/07/2010;
Imagens 





Elielma Maria dos Santos
Faculdade de Formação de Professores do Belo Jardim-FABEJA
Cristiano Cezar Gomes da Silva
Orientador. Professor Assistente da Universidade Estadual de Alagoas. Mestre em História pela UFPE (2004). Doutorado em Letras pela UFPB (2011).

Pessoal, isso é apenas um resumo desse maravilhosso trabalho,se quiser saber mais, acesse https://sites.google.com/site/vencontrodehistoria/

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